-E com os olhos em chamas e um nó na garganta, ela saiu dali e não olhou mais para trás. As palavras ditas há pouco a atingiram em cheio, desnorteou-a, perdeu o rumo. Por sequer um momento de seus agora longos dias deixava de pensar nele e em toda aquela balburdia que tinham criado juntos; nunca nela, não, sempre se esqueceu dessa parte. Deixa pra depois, vai passar, o tempo cura tudo. Descobriu pela dor que sentia naquele momento que essa era uma verdade relativa, escrava dos desejos de quem quer deixar de sentir: não se vira a página lendo o mesmo livro e a esperança, mesmo que seja a última, um dia também morre. Mate-a, se necessário. Afogue-a no seu pranto, esconda debaixo do tapete, mas desapegue.
Jogou fora o que não era necessário, aponto para o norte e rumou em direção ao desconhecido. E quando tropeçava, respirava fundo contando até três e continuava. As memórias agora eram as suas fiéis companheiras; vivas demais, por assim dizer, mas impossíveis de serem descartadas. Deixou-as lá, guardadas num potinho daquela estante tão especial. Nada de mágoas, raiva, ressentimento – iriam atrasar sua ida. Permitiu-se apenas o extremamente necessário. Apagou suas pegadas. E foi.
Antes de sair, deixou as chaves sobre a mesa e um guardanapo com um beijo para o seu amor: “Tire a mesa do café, não volto a tempo. E ah, não se esqueça de apagar as luzes antes de sair. Até logo!”. -
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