Como tudo que foi bom nesse intercâmbio, a melhor parte dele
também tinha que acabar e essa é a derradeira história da minha última Eurotrip.
Decididos em março, os destinos seriam Marrocos, Croácia, Grécia e Turquia, o
roteiro dos sonhos para a tão esperada viagem de verão. Confesso pra vocês que
sou fã de carteirinha de frio, mas 10 meses seguidos de temperaturas abaixo de
20, sem poder sair de sandália e bermuda na rua dão no saco de qualquer ser
humano e eu meio que estava ansioso pra sentir aquela gotinha de suor
escorrendo nas costas.
É óbvio que se a viagem conta com a presença minha e do
Pedro, tem que ter algum perrengue pra marcar e dessa vez foi: como chegar no
aeroporto. Os aeroportos low-cost da Europa normalmente são bem distantes do
centro, mas quase todos têm um ônibus/metrô/trem que leva até ele. Então, esse
não tinha. Ainda na Alemanha procuramos saber como fazia pra chegar nesse
“aeroporto de Paris” e vimos que não tinha shuttle bus no dia do nosso voo. O
Pedro ligou lá na empresa e a mulher passou a missão: pegar um trem pra uma
cidadezinha no meio do nada e depois um táxi, pela pequena bagatela de 30 euros
pra cada. Depois de passar 7h em um ônibus (R.I.P Megabus), chegamos em Paris
pra passar umas horinhas antes de pegar o trem. Pegamos, chegamos na tal da
cidade que é beeem pequena (e segundo o Pedro com um sotaque engraçado de
francês), almoçamos e pegamos o táxi. Quando chegamos no aeroporto, o aeroporto
estava fechado porque é tão pequeno que só tinha aquele voo saindo no dia. Quando
chegou na hora de embarcar, pela primeira vez em 12 meses, a mulher pediu pra
gente pesar nossas malas e estávamos excedendo 2,5kg dos 10kg permitidos pela
Ryanair. Daí você tem três opções: pagar 50 euros pra despachar bagagem, jogar
suas roupas fora ou começar a vestir três bermudas, duas calças, quatro camisas
e dois cintos, além de colocar o shampoo e sabonete nos bolsos pra poder
embarcar. No calor que tava aquele aeroporto, foi gostoso! Teve também a
pressão do Pedro passar pela imigração, porque o visto dele vencia naquele dia
e estávamos com medo de barrarem ele, mas deu tudo certo e entramos naquele pau
de arara que levaria a gente pra Marrakesh. 3h30 de voo depois e estávamos na
África! Veeeeelho, na África! Minha mãe devia tá querendo me matar hahaha Como
chegamos muito tarde, pedimos o táxi do hostel pra buscar a gente. Chegamos lá
e perguntamos onde podíamos comer, porque a gente tava varado de fome, doido!
Daí o cara falou que tinha uma praça lá perto que tinha coisa aberta ainda. Fui
na esperança de achar uma pracinha com uns velhinhos jogando xadrez e uns dois
lanches abertos, mas na verdade fui jogado diretamente no olho do furacão, na
praça da medina, com MUITA gente, MUITA moto e MUITA barraca de comida e
MUUUUITO suco de laranja barato (0,40 centavos por um copo era a definição de
amor).
Depois de ver cara hipnotizando cobra, homem com macaco no ombro, um com
dez passarinhos na cabeça e um urubu de 1m sentado do lado, sentamos pra comer
um verdadeiro banquete marroquino. Que delícia é a comida deles, gente!
Voltamos pro hostel e basicamente até o outro dia a tarde, quando o resto dos
nossos amigos chegava da Alemanha, ficamos no hostel ou dando volta na rua. Os
meninos e a Tainá chegaram e fomos exercitar a habilidade de barganha, o
esporte nacional do Marrocos, da Tainá. Posso dizer que ela é uma profissional,
porque sentamos no restaurante e o cara trouxe basicamente um item do cardápio
pra cada (sem exagero) e open bar de bebida (sem álcool, porque é proibido por
lá), tudo por 10 euros. Comemos feito
verdadeiros sheiks!
No outro dia íamos fazer o tour de dois dias pelo deserto,
porque combinamos que era mais do que o suficiente pra ficar comendo areia. O
esquema é você entrar em uma van bem boa até e andar por 8-10h pela estrada
mais tortuosa do mundo, parando em alguns lugares pelo caminho (tipo a cidade
onde eles filmaram “O Gladiador” e “Game of Thrones”), até chegar na beira do
deserto, onde tem mais uma hora e meia em um dromedário, até chegar no deserto
pra dormir nas tendas. A verdade é que tudo não passou de uma farsa! Como
escolhemos o tour de dois dias não andamos o suficiente pra chegar ao deserto
de verdade, então terminamos em um que não tinha dunas (daí vocês tiram quão
fake era a história toda), as barracas tinham TOMADA e TINHA BANHEIRO!
Estávamos preparados pra passar o maior perrengue da vida e era tudo um luxo,
só faltou o sinal de wi-fi (mas o sinal do celular funcionava). A única lição
que tomamos foi: andar de dromedário é doloroso e nada agradável. No outro dia
voltamos pra Marrakesh mortos depois das 10h diretas de viagem e como ninguém
aguentava mais comer cuscuz e tagine (que aparentemente são as únicas comidas
que tem por lá), fomos ao KFC. Resultado no outro dia: todo mundo com dor de
barriga. Lição número 2: comer nas barraquinhas de rua do Marrocos é mais
seguro. O outro dia era o último e saímos pra fazer as últimas compras e mais
uma vez a Tainá quase apanhou por estar negociando até o limite com os caras
hahaha No final saí com mais coisa do que cabia no bagageiro do avião, muitas
lembranças boas e uma saudade enorme de ter deixado alguns amigos lá que eu não
vou mais ver por um tempo. L
Com lágrimas nos olhos de, principalmente, ter me despedido
de uma das pessoas mais incríveis que já conheci (Tainá linda que terminou que
estou indo ver de novo <3), eu e Pedroca pegamos o voo pra Milão, onde íamos
dormir (no chão do aeroporto, vale ressaltar) e fazer escala pra pegar o voo
pra Split, na Croácia. Pedro dormiu como um anjo, enquanto eu passei a noite
dormindo e acordando naquele chão gelado e duro, tentando encontrar alguma
coisa pra fazer o tempo passar mais rápido. Mas depois que deitamos nos bancos
macios do Burguer King tudo melhorou hehe. Embarcamos no avião e quando
chegamos ao hotel de Split a única coisa que eu queria fazer era: dormir. Por
sinal, vou soltar a frase mais pedante de toda a minha vida, mas NÃO AGUENTO
MAIS TURISTAR!!1!!1!111! Chega uma hora que as igrejas, as estátuas, os museus
e as praças são todas lindas, porém todas iguais, e tudo o que eu queria era
sentar na praia, pegar a cor perdida nos últimos meses vivendo sem sol, não ter
hora pra acordar e ficar sem preocupação. Foi tanto que cheguei em casa e vi
que não tinha nenhuma foto de Split hahaha. O outro destino era Dubrovnik,
também na Croácia, de longe uma das cidades que eu mais gostei da viagem. Dessa
vez fizemos um turismo de leve, porque o centro da cidade é murado e meio
medieval, bem lindo. Logo em seguida fomos parar na praia de novo. No outro
dia, mais praia. Na altura do campeonato eu já estava um tição e com todas as
marcas de camisa possíveis. Daí voltamos pra Split, de onde íamos pegar o voo
pra Atenas, com escala em Milão, e ficamos num hostel muuuuito longe da cidade,
mas que pelo menos tinha uma praia praticamente privativa na frente. Resultado
da Croácia: um bronzeado de dálmata e a certeza de que foi uma das maiores
surpresas da viagem.
Seguindo viagem, chegamos a Atenas. Já tinha lido que não
era das cidades mais seguras da Europa, mais ainda agora com a crise apertando,
e a primeira coisa que ouço na rua, 23h30, quando fui pedir informação na rua
é: “Don’t show your cellphone to black people.” Oooookay! Passada a tensão,
chegamos ao hotel (sim, HOTEL, não HOSTEL \o/) e fomos nos arrumar pra sair pra
balada, porque a gente é v1d4 l0k4, mas andamos e andamos, não achamos a tal da
balada, comemos e voltamos pro hostel, como dois jovens de 21 anos numa cidade
grande. O outro dia era pra turistzzZZzzZzzZ pelas ruínas da antiga Grécia. Primeiro
que tava um calor dos infernos e não sei mais viver no calor e já tô depressivo
porque moro em Belém, né?! Segundo que eu tinha que passear fingindo que tava
interessado, quando na verdade só queria estar deitado torrando no sol numa
praia. A primeira parada foi a Acrópole (que é, basicamente, o que tem pra se
ver em Atenas) e ninguém me falou que tinha que subir tooooooda aquela montanha
até chegar lá, o que parece o óbvio quando você sabe que a parada fica em cima
de um morro; mas como eu disse, tava calor. Você sobe por um morro e no caminho
vai vendo as ruínas da Grécia Antiga e vou contar um segredo pra vocês: é tudo
cilada. Tirando a parte em que você chega ao Parthenon, que é bem
impressionante, o resto são pedras no chão, com plaquinhas indicando o que era
cada coisa. E olha que quem vos lhe conta isso é um futuro arquiteto que
consegue até ver essas coisas, mas a de lá só sendo vidente. Andamos pela
parada toda, sob aquele sol escaldante, suando, e depois de esgotar voltamos
pro hotel pra encontrar com a Priscila e o Vítor, casal de amigos meus que
estava chegando pra seguir viagem junto com a gente pela Grécia. Eles tinham
planejado um walking tour e terminamos indo junto com eles. *E ah, nesse meio
tempo comemos comida grega de verdade, não souvlak,
o kebab grego, que terminou sendo o nosso alimento por todo o país.* Passeamos de novo pelas pedras antigas, dessa
vez com um guia explicando tudo; foi bem legal. Daí chegamos no final do tour e
o guia apontou um batedor de carteira que “trabalhava” lá na área. Momento
tenso nº 2. Voltamos pro hotel e demos uma saída pra um barzinho à noite, só
pra dizer que não somos jovens tão enferrujados assim.
No outro dia bem cedo saía nosso ferry pra Mykonos. Eu e
Pedro colocamos o despertador pra mais cedo ainda, porque ainda íamos jogar as
coisas na mala. Daí que nenhum dos dois acordou com o despertador, apenas com a
ligação dos meninos da recepção, dizendo que já tava na hora de pegar o metrô.
Ou seja, estávamos fufu. Jogamos as tralhas todas na mochila, vestimos uma
roupa e saímos com cara de ontem, correndo pra pegar um táxi. Claro que no meio
do caminho tinha um engarrafamento monstruoso, né?! Aeeeew! Pra piorar o
taxista ainda levou a gente pra entrada errada do porto e tivemos que sair
correndo pra certa, porque ainda tínhamos que trocar os tickets online pelos
tickets normais. Chegando lá o que aconteceu? A mulher diz pro Pedro que os
tickets eram pro dia seguinte. Yaaaay! A questão é que ele comprou errado da
primeira vez, cancelou e comprou de novo, mas imprimiu a confirmação errada. Resolvido
o problema, saímos VA-RA-DOS pro ferry e, só sobre explicação freudiana,
conseguimos entrar na bodega com menos de 5 minutos faltando pra ele sair. O
troço era enorme, tava lotado, mas ainda assim conseguimos encontrar os meninos
e viajar com eles. Como eram 7h de viagem, demos o migué de sentar na cadeira
que é mais cara de graça J.
No final até bebemos uma cervejinha juntos pra comemorar o sucesso da viagem
haha.
Quando aportamos em Mykonos a linda da Christina, uma alemã
que cuidava da nossa pousada, estava nos esperando. Muito simpática e
prestativa, só não depilava as axilas e não passava desodorante, mas era um
amor. Nosso hotel ficava de frente pra praia, com apenas uns muitos degraus
característicos das ilhas gregas entre nós; descemos pra praia, almoçamos no
restaurante caro que tinha cabelo no cordeiro e sentamos pra pegar sol. De
noite fomos desbravar a cidade e depois fomos pra uma baladinha com happy hour
de bebida que me deixou bem legal. No outro dia resolvemos, por indicação da
Christina, conhecer a ilha sobre um quadricículo, maior ideia de girico que
tivemos. Quando sua mãe fala “não faz isso, não faz aquilo” é melhor ouvir e
não fazer, porque vai dar merda. Andar nessas coisinhas era uma dessas coisas.
No começo do caminho, o Pedro perdeu o controle do bicho e ficamos sambando
entre as duas faixas da rua, igual a vídeo game do Mario Kart, sabe?
Conseguimos parar, ouvimos um esporro em grego e seguimos viagem com um cagaço
enorme de morrer, porque pra piorar a praia fica depois de uns 20 minutos de
descida de ladeira. Daí passamos o dia na mesma praia, abandonando a ideia de
pular de praia em praia, e perdemos o happy hour e a balada na praia porque não
podíamos beber L Tirei
o atraso a noite na balada, mas vou parar por aqui porque minha mãe já deve
estar p* da vida comigo hahaha
No dia seguinte embarcamos para Santorini no pior ferry da
história do ferrys do mundo, que ainda me fez o favor de atrasar; o bicho balançava
tanto que eu, que nunca fui disso, fiquei enjoado e só queria que aquele
inferno sobre a água acabasse logo. Chegamos de noite, subimos de carro uma
montanha numa estrada bem tensa, mas Deus escreve certo por linhas tortas e a
gente não conseguia enxergar nada mesmo. Como só tínhamos um dia na ilha, fomos
fazer o tour do vulcão, que consiste em pegar um barco e parar numa ilha
vulcânica, depois tomar banho num mar vermelho e “quente” (só era mais quente
que as águas super geladas da Grécia) e no fim assistir ao pôr-do-sol de
Santorini, mundialmente famoso aparentemente. Como já divulgado abertamente no
Facebook, minha havaiana resolveu quebrar no meio da ilha vulcânica, sem
esperança de sombra ou qualquer outro paliativo decente a vista. Uma alemã tentou
me ajudar me dando um saco, mas não resolveu muito o problema. Fiquei pisando
em solo quente até que uma mulher amarrou minha sandália com gaze; parecia
Lazaro depois do terceiro dia da ressureição, mas foi o que salvou o meu dia. E
sobre o tal do por do sol: o de Belém continua sendo o mais bonito do mundo pra
mim.
A viagem seguiu com a gente indo a Kos, a última das ilhas
gregas, que serviria apenas como escala pra Turquia (e onde a gente viu o
Luciano Huck e a Angélica rs) e Bodrum, uma cidade porto na Turquia que servia
de escala pra Istanbul e onde dormimos no pior hostel da vida, com direito a
algum tipo de bicho que mordia na cama. E então, finalmente o último destino da
viagem chegou – e se você leu até aqui, você deveria ganhar um chaveiro da
Holanda.
Como é de se esperar estávamos mortos de cansaço, doidos pra
voltar pro Brasil e já sem dinheiro (resumo de todo fim de viagem), mas até que
conseguimos aproveitar bastante a cidade. Como disse minha amiga Tainá, depois
que você vai ao Marrocos nada mais te surpreende e é bem isso. Istanbul é uma
mistura de Ásia com Europa, com mesquitas por todo lado, mas com mulheres se
vestindo de maneira ocidental, por exemplo. Nosso hostel ficava bem perto de
tudo (do terraço dava pra ver a Mesquita Azul e a Aya Sofia), inclusive das
multidões de pessoas famintas que saíam pra comer qualquer coisa quando o sol
se punha (era época do Ramadan) e de milhões de lojas de doces turcos, que se
tornaram um vício durante aqueles quatro dias. Tivemos até a chance de ir à
praça Taksym, onde estão rolando os protestos por lá; tudo muito tranquilo, até
a gente descer uma rua e ver que ia rolar onda e demos o fora de lá. O Pedro
também nos achou uma boate com “pop turco”, mas o que vale é a intenção, certo?
Resumindo bem, Istanbul me pareceu um Marrocos mais civilizado, com os mercados
mais organizados e uma cultura, aparentemente, menos radical.
E é triste dizer, mas esse foi o último post de viagem dessa
minha aventura pela Holanda. Comecei a escrever esse texto ainda lá e terminei
aqui no Brasil, então são muitas mixed
feelings, muita nostalgia. Foi, sem sombra de dúvida, a melhor viagem que
fiz durante o ano todo e fechou com chave de ouro o melhor ano da minha vida.
Teve briga, teve estresse, teve pegapacapá, mas também teve muito amor, risos e
amigos, tudo isso com as paisagens mais bonitas que já tive o prazer de ver. E
hoje, só o que posso fazer é agradecer a todos os meus companheiros de viagens,
porque sem eles isso tudo não teria tanto sentido, não teria sido tão bom. E mesmo
que um dia, daqui a 50 anos, nossos caminhos não se cruzem mais, vou sempre
olhar para nossas fotos e lembrar as nossas aventuras.
Vocês estarão pra sempre guardados na minha caixinha de
lembranças.
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