No dia em que te conheci, tinha perdido. Ou estava perdido,
não sei. Ando encontrando dificuldades em me encontrar nesses últimos vinte e
um anos de vida. Seja como for, tinha decidido fechar a conta, encerrar o jogo,
cancelar as perdas pra continuar como estava. Mas aí dizem que as coisas
acontecem quando tem que acontecer e você me apareceu tão fácil, tão brilhante
ali na frente; o pacote já estava tão belamente embalado pra levar pra casa que
não tive como dizer não. Afinal, há sempre a possibilidade de devolução, certo?
Comprei tuas fichas e apostei em ti, na gente, meio
cegamente, sem pensar, inebriado pela leveza do momento. E isso como se eu
estivesse rico de sentimentos, cheio de amor pra dar (assim mesmo, bem clichê,
bem barato), como se não tivesse acabado de perder tudo. Aliás, “tudo” é
boicote meu, que me passo a perna sempre que posso e que como todo bom
pisciano, não mede a mão na hora de temperar a vida com um certo drama. Mas
voltemos a ti, se afinal não ando com muitos outros motivos para escrever.
Apostei alto, joguei todas as fichas e quando vi, estava
zerado. Comprei mais e mais e elas terminavam sempre indo por água abaixo, numa
maré de azar que encobriu a gente e nem vimos. E ainda assim insistimos. Não
joguei sozinho, certeza que não. Por mais que meu sabor pelos desesperos da
vida tenham me cegado de te ver tentando, no fundo eu sei que estavas sempre
ali, do meu lado, do teu jeito. Mas receio que apostamos alto demais. E
esgotou. Esgotamos. Perdemos o jogo juntos e te retiraste. Eu, como mal
perdedor, continuei ali apostando alto no impossível de sermos nós de novo.
E hoje me vejo cheio de todas essas fichas que não tenho
onde depositar, cheio de palavras que não tem quem sinta, cheio de sentimentos
que não tenho pra quem dar, cheio de amor que não queres aceitar.
Se eu embalar bem bonito, no teu papel preferido, com um
laço vermelho bem grande em cima e com teu nome no de/para, tu aceitas de
volta?
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